sábado, 26 de maio de 2007

Recados.


“Biiiiip”
- Oi. Não estou em casa. Se você for gostosa deixe seu recado. Mas se for baranga não ligue mais.

Era assim a mensagem da secretaria eletrônica de Miguel. Ele gostava desse tipo de coisa. Era melhor ser direto. Do que enganar. Miguel é o típico gostosão. Boa pinta e bom de cama. Como o tempo ele descobriu que isso poderia ser um ótimo ganha pão. Ela trabalhava em um escritório de cobranças. Nas proximidades da Praça da Republica. Ele até que gostava de lá. Mas ele queria mais. Miguel tinha o pior dos defeitos. Inveja. Queria ter o mesmo que os patrões, mas ganhando salário de fome. Impossível. Com sua carreira paralela, deixou o escritório e passou a se dedicar a outra profissão. Passava o dia na academia. Um amigo lhe arrumou uma “vaga” no parque Trianon. E ali passava suas noites. Suas preferidas eram as coroas carentes. Arrancava delas o que queria. E estava sempre ganhado presentes. Era um ótimo ator. Ouvia seus problemas e fingia que se importava com elas. Nem todas queriam sexo, apenas um pouco de atenção. A atenção que o marido dava para a amante ciliconada. Mas isso não era problema dele. Como o tempo Miguel fez um ótimo pé de meia. Conheceu o mundo as custas de abonadas senhoras carentes. Seu serviço era muito procurado. Seu telefone não parava de tocar.

“Biiiiip”
- Alo, Miguel sou eu. Por favor, me liga. Você sumiu. Sinto sua falta.

Esse era o tipo de recado que Miguel mais odiava. Velhas grudentas são um pé no saco. Ele deixava claro que era apenas profissional. Não queria envolvimento. Não queria complicação com marido corno. Morava em um apartamento na Bela vista. Poderia ter se mudado para um lugar melhor, mas tinha raízes ali. Assim Miguel seguiu sua vida. Mar de rosas.
As noites de sexta eram as mais lucrativas. Não atendia só as coroas abonadas dos jardins. Respeitáveis senhores engravatados, esses eram o alvo. Mas alguma coisa saio errado naquela noite. Seu celular tocou. Uma cliente nova. Isso era bom. Ele atende. Flat nos jardins, é claro que ele iria. Não demorou muito e lá esta ele pronto para executar mais um serviço bem feito. Mas uma coisa sempre o incomodava com clientes novas. Podiam ser velhas múmias com dentes amarelos. Mas dinheiro é dinheiro. Passou sem problemas pelo saguão e entrou no elevador. Pronto lá estava ele. Tocou a campainha. A porta se abriu lentamente. Ele sempre respirava fundo nessa hora. Mas para sua surpresa, quem abria a porta não era a velha munia que ele esperava.
- Miguel? Por favor, entre.
Por essa ele não esperava. Apesar da nova cliente aparentar estar na “casa dos quarenta”, era linda. Cabelos e olhos castanhos e o melhor, corpo perfeito.
Miguel entrou no apartamento. Ele estava acostumado a ser atacado. Isso não era problema. Quanto mais rápido acabasse Mas desta vez foi diferente.
- Como vai, Você foi muito bem recomendado sabia?
Sua voz era voz era calma e agradável.
- Por favor, Sente-se. Quer tomar alguma coisa?
Miguel não sabia o que fazer. Ela se apresentou. Joyce. Era seu nome. Durante muito apenas conversaram. E riram. Miguel trepava com suas clientes. Mas com Joyce, ele fez amor. O dia nasceu. Miguel nunca dormia nos flats. Mas desta vez não se importou. Acordou do lado de Joyce. E ficou velando seu sono durante algum tempo. Quando ela a acordou, novamente fizeram amor. Tomaram café da manha juntos. Mais tarde se despediram com um caloroso beijo. Beijo de namorado. Esse programa ele não cobrou e ficou envergonhado quando Joyce insistiu. Afinal trabalho é trabalho. Depois daquele dia, se viram muitas vezes. Miguel violou o principal mandamento dos profissionais do sexo. Apaixonou-se por uma cliente.
Miguel largou a prostituição. Joyce se oferece para ajudá-lo. Com orgulho recusou. Tinha uma boa reserva. Voltou para a faculdade que um dia abandonou. Seis meses se passaram. Agora eram namorados. E iam viajar juntos pela primeira vez. Miguel planejava pedir Joyce em casamento.

Segunda-feira.
12:00.
“Biiiip”
- Querida. Sou eu, já comprei as passagens me liga. Te amo.
12:35.
“Biiiip”
- Onde você esta que não me liga de volta. To esperando.
13:02.
“Biiiip”
- Cadê você amor? To ficando preocupado.

Miguel não entendia ao que poderia estar acontecendo. Joyce nunca deixava de responder seus recados. Deve estar ocupada. Ele não ligaria mais. Ela poderia estar em reunião. Sim. É isso. Ela esta em reunião. Ela sempre lhe contava de como eram chatas e longas essas reuniões com os gringos.
- Vou deixá-la em paz.

19:05.
“Biiiip”
- Querida. Eu de novo. Assim que der me liga. Beijos.
19:40.
“Biiiip”
- Joyce está tudo bem. To preocupado me liga assim que chegar em casa. Te amo.

Miguel não sabia o que era aquele sentimento que fazia seu coração doer. A preocupação deu assas a sua imaginação. O que poderia esta acontecendo? Será que ela foi assaltada? Ou pior se foi atropelada e sta em algum hospital precisando da minha ajuda. Não! Isso é loucura. Ela esta bem. Ela é uma mulher importante tem muitas responsabilidades, não pode viajar assim. É isso. Logo ela vai me ligar.


Terça-feira.
24:05.
“Biiiip”
- Querida. Por favor, se estiver em casa. Atenda ao telefone.
01: 07.
“Biiiip”
- Querida. Estive pensando. Se eu fiz alguma coisa de errado, por favor, me perdoe.
01:45.
“Biiiip”
- Cansei de esperar. Vou dormir. Pense melhor e me ligue. Pelo menos para me xingar. Te amo.


Mas Miguel não dormiu ficou virando na cama. Ficou pensando se realmente teria feito algo errado. Algo que a deixasse nervosa a ponto de não querer falar com ele. Ele pensou e pensou. E nada veio a cabeça. Ele não tinha culpa de anda. Novamente a imaginação ganha asas. O que teria acontecido. Será que ela sofreu um acidente. Teria caído da escada. E estava lá no escuro ferida. Quase morta. Ele tinha que saber a verdade. Pegou o carro e foi ao prédio em que ela trabalhava. Inútil. Quase foi preso. Voltou para a casa. Passou em uma banca de jornal. É isso! Jornal. Se tiver algum atropelamento ou acidente grave, estaria no jornal. Folheou pagina por pagina diversas vezes e nada. Joyce desapareceu. Pensou ate em seqüestro. E se ela era casada e o marido descobriu. Sim, pode ser isso e se for? O que fazer? Não! Ela não era casada ele saberia. E se ela conheceu outro cara e mudou de idéia sobre nos?


08:20.
“Biiiip”
- Atenda ao telefone querida. Por favor.


Assim foi por uma semana recado após recado. Ele já não queria mais ligar. Ela o abandonou. Não fazia Idea o porque, mas o deixou. E agora como seguir com a vida. Tudo estava traçado. Planos feitos, mas com ela ao seu lado não queria voltar à prostituição. Estava cansado daquela vida. Andou pela casa. Olhava lá para baixo e pensava que seria uma saída rápida. Não, daria trabalho para o zelador raspá-lo da calçada. No seu aniversario, Joyce lhe deu uma navalha alemã do século. XVIII. Uma obra prima. Apesar dos anos, ainda mantinha o poderoso fio. Ele já ouvira a receita em algum lugar. Bastava encher a banheira de água quente. A morte vinha calma e indolor. Como o sono. Sim essa era a saída. Não queria ficar sem ela.
Miguel encheu a banheira de água o vapor tomou todo o banheiro. Com dois rápidos movimentos Miguel cortou os pulsos com a navalha. É verdade. Realmente não dói nada e a sensação e de conforto. Ele vai se deixando levar pelo sono. Ele sabe que é a morte chegando. A água agora e rubra e não tem mais volta. Na sala ele ouve o telefone tocar.

“Biiiip”
- Querido sou eu. Desculpe se não dei noticias. Tive que viajar a negócios e esqueci o celular em casa. A viagem ainda esta de pé? Te amo. Tchau
Foi a ultimo recado que Miguel ouviu Andes de fechar os olhos pela ultima vez.



MH: Paciência é uma virtude que nem todos possuem.

Um comentário:

Unknown disse...

O passado dos personagens deve influenciar nos finais para não ficar a sensação de que...eu poderia ter começado da metade que não faria diferença....mas gostei.

Abraço.

Lopes