Entardecer de Outono. Ao longe o céu parece ser um grande mar de fogo. O vento morno acaricia meu pêlo. Dois andares abaixo, alguém escuta “Absolute Beginners” sem parar. Não me importo, gosto de David Bowie. Observo os carros passando lá em baixo. Atrás de mim, um rato tenta se esconder. Não tenho fome, deixo ir. Ainda é cedo, vai demorar ate ele chegar. Gosto de ficar aqui em cima. Longe dos humanos e livre dos carros. Aproveito o tempo e fico olhando através das janelas abertas. É divertido. Somente em seus lares os humanos são o que realmente são ou pelo menos o que gostariam de ser. Um respeitável senhor se masturba olhando revistas de homens nus. Enquanto sua esposa prepara o jantar. Em outra janela uma garota com afinidades religiosas, dança nua em frente ao espelho, imaginando uma platéia ávida por seu corpo.
- Gosta de observar os humanos?
Olho para o lado e vejo um velho gato de rua. Gato sem nome.
-Sim, eles são engraçados. Respondo olhando para baixo.
- Espera por alguém? Me pergunta o gato sem nome enquanto lambe a pata.
-Desculpe...
-Sim, vi você por aqui. Sempre na mesma hora fica aqui sentado olhando para as janelas. Não é comum para um nossa espécie. Isso é típico dos humanos. Olhe, estou indo ate a rua de traz. Meu mestre trabalha em um restaurante japonês. Sempre tem peixe fresco. Quer vir comigo?
- Não. Obrigado.
-Ora deixa disso. Ele não vem agora, vai demorar.
- Como sabe que espero por ele?
-Todos nos sabemos que a garota que mora no prédio em frente recebe visitas noturnas. Você é o único gato que eu conheço que para ver. Então...
Olho para a janela e para o céu ainda esta cedo. Ele tem razão. Então aceito.
-Você tem mestre? Não parece.
-Na verdade não. Mas o humano gosta de nos. Sempre que apareço ele me da comida. Prefiro caçar, mas peixe fresco, Hummmm... Impossível recusar.
- E você meu amigo. Tem mestre?
- Já tive. Mas isso tem tempo.
- Quer falar sobre isso? Sou um bom ouvinte.
Com um gesto de cabeça respondo que não.
- Você é quem sabe. Aqui. Chegamos.
Olho para o beco abaixo. É verdade. Um humano espera pelo sem-nome.
- Aqui. Bichano. Grita olhando para cima.
- Venha garoto esta tudo bem.
Com três saltos estamos na calçada do beco. O humano brinca com o sem nome. Eu apenas observo. Quase com saudade de ter um mestre que acaricie meu pelo.
- Agora você e seu amigo se comportem. Se souberem que dou peixe fresco a vocês estou perdido. O humano entra e fecha a pesada porta de madeira.
Mais uma vez o sem-nome esta certo. Não se rejeita peixe, principalmente fresco. E a corrida ate aqui me abriu o apetite.
-Ora, vejam só. Amigo novo?
Das sombras vejo surgir uma gata de pelo cinza e grandes olhos azuis.
-Seja bem vinda Charlotte, fugiu do seu castelo?
-É... Sempre que posso dou escapada. me diga, quem é seu amigo?
Eu a observo enquanto ela anda em volta de mim. Impossível não deixar se levar por seus olhos.
- Rafamuffin. Respondo sem para de comer meu peixe.
- Bonito, mas sem nenhuma educação.
Ela me acha bonito. Que bom, quem sabe podemos nos entender melhor mais tarde. Mais gatos sem nome saem de traz da caçamba de lixo. Droga, não queria brigar.
-Calma... Garoto todos são amigos aqui. Pode comer seu peixe.
Vergonha.
- Hei. Tigrado quem é o garoto, seu novo aprendiz?
Aprendiz? Porque diabos acham que sou aprendiz desse velho gato sem nome.
- Não. É apenas um novo amigo. Deixem o garoto comer em paz. Mas. Digam-me, o que fazem por aqui? Tão Longe de seu território?
- Desculpe tigrado. Não queríamos invadir seu território. É que aquele humano idiota soltou o pitt-Bull no telhado do nosso prédio. Toda noite tem sido assim. Ele o solta o cretino para nos caçar. Noite passada ele pegou o bolinha, pobre filhote. Não foi uma coisa bonita de se ver.
- Humanos desgraçados.
Desabava a gata de olhos azuis.
Por horas ficamos conversando. Mais irmãos apareceram, todos com vidas e historias distintas. Algumas revoltantes outras engraçadas. Ouvi sobre a lenda dos mil gatos e de lugares míticos onde nos gatos somos a espécie dominante e os humanos reles servos.
- A lua está alta. Melhor irmos. Não quer perder seu show, quer?
É verdade, havia me esquecido completamente. Nunca pensei que conversar com outros gatos seria tão prazeroso.
- Sim é verdade tenho que ir. Obrigado a todos.
- Não por isso. Apreça sempre que quiser. Me convida a gata de olhos azuis.
O Painel de néon da boate em frente, da sinal de vida. Trazendo luz ao beco escuro. Enquanto todos pragejavão, eu pode ver melhor o gato sem nome que atendia por tigrado. Não que nos gatos precisássemos luz para ver. Mas eu estava tão fechado em meu mundo que não vi ou não me interessava ver. Mas agora podia ver com clareza. O gato que todos tratam com respeito. Era enorme, seu pelo era de um tom abóbora com listras cinzas. Suas orelhas eram pontiagudas, bigodes imensos, seu corpo era tomado de velhas cicatrizes e muito forte. Em poucos minutos estávamos onde tudo começou.
-Obrigado pelo peixe e me desculpe. Não sou muito de fazer amigos, por isso pareço arrogante, mas acredite, não sou.
- Não se preocupe. Você é jovem ainda tem muito que aprender. Apareça sempre que quiser. Será bem vindo no beco.
- Obrigado Tigrado.
- Gallore.
- Como?
- Meu nome é Gallore.
Assim Gallore desaparece por entre as caixas d’água e velhos telhados. Eu olho para a janela e agora isso não tem mais sentido. Eu realmente queria estar com os gatos do beco.
Não demora muito e ele aparece na rua. Ele anda calmante, sem presa. Viro a cabeça e ele esta ao meu lado. Um humano comum diria que ele apareceu. Mas ele apenas saltou. Com olhos de sangue ele me olha, ri com o canto da boca e salta para dentro do quarto. A coisa toda não demora mais que trinta minutos agora ele sai pela janela e com muita facilidade escala a parede ate o telhado. Posso ver o sangue escorrer no queixo. Assim como nós ele salta prédio após prédio ate desaparecer na noite.
Olho a janela aberta, alguma coisa me diz: Vai lá ver. Mas resisto à curiosidade e adormeço no mesmo lugar.
Acordo algumas horas depois com o barulho de uma pequena multidão. Olho para baixo e vejo uma ambulância. Dentro do apartamento. Uma senhora grita:
- Mi Hija, Mi Hija.
No corredor, velhas senhoras fofocavam.
- Ésa es la cosa Del vampiro.
Fico parado lá por horas. Homens de uniforme entram e saem do prédio. Das janelas vizinha, olhos curiosos buscam pela desgraça alheia. Uma gota d’água cai em minha cabeça. Chuva. A velha caixa d’água me dá abrigo. Agora faz sentido porque Gallore não deixou que eu ficasse lá no beco, e que eu iria perder o show. Ele sabia que aquela seria a ultima visita do vampiro. A chuva esta passando e meu estomago queima de fome. Será que tem peixe hoje à noite?
MH: Não importa o que. Mas antes de começar qualquer coisa, termine antes o que começou.
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Um comentário:
Marcello!!!
Adorei!!! Parabéns!!!Você escreve super bem!!!É um escritor nato!
Um grande beijo!!!
Andréa Foroni
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