sábado, 26 de maio de 2007

A Dama Branca.


- Aqui gatinha! Venha, Charlotte trouxe sua comida.
Era assim que minha Senhora chegava em casa todos os dias. Parece estranho “Minha senhora” sei disso. Mas quer saber! Não me envergonho em dizer que tenho um mestre. Desde que ela me achou no fundo de um bueiro, nada me faltou. Tenho tudo que uma gata pode querer. Mas infelizmente não posso dizer o mesmo sobre ela. Ludmila era assim que ela se chamava. Todas as tardes quando ela chegava em casa, não era eu que ela gostaria de achar. Seu sonho sempre foi ter marido e filhos. Família. Mas tudo que ela achava era uma gata de olhos azuis. Mas nem por isso ela me tratou mal um dia se quer. Eu era sua amiga e confidente. Enquanto preparava o jantar, ela me contava de como tinha sido o seu dia. De como o babaca do chefe a explorava, de uma amiga que sofrera assedio no elevador e de como ela agiria se fosse com ela. Eu apenas ouvia tudo atentamente.
Durante todo o dia o barulho e quase insuportável. Mas quando o minhocão fechava, era um silencio. Apenas o barulho de carros e sirenes ao longe. Eu ficava na janela ouvindo os barulhos noturnos. Por varias noites eu a vi chorando debaixo do lençol. Não gostava de vê-la chorando. Ludmila não era uma mulher feia. Mas os homens não viam nada nela alem da bunda. Que segunda ela mesma, era a única coisa boa que ela tinha depois do cérebro. Ludmila tinha uma Tv., mas nunca a ligava. Gostava de passar seu tempo lendo e ouvindo musica. A sala era uma filial de um sebo qualquer. Livros por toda à parte. Seus autores prediletos eram: Fernando pessoa, Edgar Allan Poe e Oscar Wilde. Perdi a conta de quantas vezes ela recitou O Corvo. Para mim.
Algumas semanas atrás, ela chegou diferente. Seus olhos tinham um brilho estranho. Pela primeira vez em anos, ela chegou em casa e não gritou por mim. Foi direto para o aparelho de som e tirou o Cd do Joy Dvision que mais gostava e o que mais ouvia.“Decades”. No lugar. Uma musica alegre. Ela cantarolava pelos cantos. Até que lembrou de mim.
- Desculpe Charlotte. Não vi você ai. Aqui esta seu jantar. E saiu da cozinha como se estive deslizando no ar. Tomou banho, mas ao contrario de todas as noites. Ela não pegou nenhum livro para ler na cama. Pegou no armário um lindo, porém discreto, vestido florido se arrumou como nunca. E viu no espelho uma mulher que ela nunca imaginou ser.
- Gatinha, não me espere acordada. E saiu trancando levemente a porta. Não sei quanto tempo se passou. Mas acordei com um leve barulho na maçaneta da porta. Ludmila entrou. Atrás dela uma figura se escondia nas sombras. A sala se encheu de luz. A figura tomou forma de uma garota. Não mais de vinte anos loira, muito bonita. Cabelos longos. E olhos claros. Dei uma volta pela casa. Esticar as pernas. Quando voltei para a sala encontrei as duas nuas no sofá, trocando beijos e caricias. Nunca entendi o porque disso, mas elas que são humanas que se estendam. E se ela esta feliz isso é que realmente importa.
Os primeiros raios de sol deixam o céu em tons degrades. Eu acordo. Elas estão na cama. Dormem abraçadas. Bonito ver. Agora não a mais choro e tristeza. Um ano se passou desde que Andréa chegou. Não escuto mais recitar de poemas, não escuto mais Dead can dance e Joy Division. Mas em compensação. Agora escuto piadas e risadas. A casa que outrora era escura e fria agora não passa um dia que as janelas não sejam abertas durante todo o dia. Ludmila saiu da agencia de turismo que trabalhava. Mas antes de sair foi à sala do babaca do seu chefe, abriu a porta e gritou para que todos pudessem ouvir.
- Foda-se se Babaca escroto!!!!!
Tudo estava indo bem. Ludmila e Andréa montaram uma grande Pett-Shop. Aqui mesmo no centro. Assim como Ludmila, Andréa também gostava muito de mim. Diziam que eu era a “filhinha” delas. Aos sábados, o apartamento ficava cheio de gente. Nunca pensei que alguns humanos pudessem ser tão legais. Eu ficava no meu canto. E ouvia sobre quase tudo. Sexo, Cinema, quadrinhos, musica e todo tipo de arte.
Mais um ano se passou. E ainda me lembro daquele sábado. Andréa não acordou bem. Tossia muito. Juntas foram ao medico. E por horas Ludmila esperou e esperou. Ate que o medico deu a noticia. Andréa era soro positivo. Uma lembrança do idiota do ex-namorado. Mas isso não abalou o amor que existia entre as duas. Pelo contrario isso fortaleceu ainda mais o que existia entre elas. Mas o tempo passou e a doença é implacável. E numa fria tarde de Outono, Andréa... Partiu.
Eu confesso. Chorei por elas.(E se contar isso a alguém, eu nego) chorei pela saudade que eu sentiria de Andréa, chorei por Ludmila que perdera uma parte do coração. Agora tudo mudou. O apartamento não tem mais vida, voltou a ser frio e escuro. Amigos batiam na porta. Mas Ludmila se recusava e ver viva alma. Eu mesmo me mantive afastada. Eu respeitava sua dor e seu luto. Os negócios iam bem, mas sem Andréa não tem mais graça, perdeu o sentido. Eu ainda me lembro das noites que Ludmila passava chorando. Chorando por algo que ate então nunca tinha experimentado. Agora ela chora pelo amor que perdeu. A dor é muito maior. As semanas passam e ela já não vive apenas “vegeta” ela ainda trabalhava. A pett-shop era o sonho de Andréa. Fora isso tudo tinha voltado como era antes não tinha mais Tv. Ela trazia boas lembranças. Isso doía. O velho Cd estava de novo no aparelho de som. Com o tempo Ludmila. Começou a ser perturbada pelo fantasma de Andréa. Qualquer barulho no corredor, Ludmila saia correndo para abrir a porta.
- Esqueci de tirar o trinco da porta de novo. Andréa vai ficar brava.
Mas só havia uma coisa no corredor. Escuridão. E nada mais. Voltava para a cama e fica esperando que Andréa batesse a porta.
Aquela tarde eu sai. Fui para o telhado. Fiquei algum tempo pensando nos humanos e suas vidas breves. Superiores e tão frágeis. Quando voltei para casa, notei a porta aberta. Estranho, Ludmila nunca deixa a porta aberta. Como e de nossa natureza, entrei. Mas muito desconfiada. Tudo estava normal. Nada estava faltando. Andei por toda a casa. A chamei algumas vezes.(Miaaaaau) ate que entrei no banheiro. Respirei fundo. E só me veio uma coisa: ela não agüentou. Pobre menina. Pendurada no cano do chuveiro. De novo eu chorei (já sabe) fiquei ali, parada no chão frio olhando, olhando, olhando. Então fiz uma coisa que nenhum outro gato vez por um humano. Rezei a Deusa Bastet. Para que conduzisse em segurança pelo reino dos mortos.
Voltei para a sala. Então a vi entrar pela porta. A Dama Branca. Uma garota. Não aparenta mais que dezessete anos. Pele branca e cabelos negros. Olhar de menina sapeca. Vestia uma calça de couro e camiseta preta que deixa um decote generoso.
- Oi Charlotte. Tudo bem.
Abaixei a cabeça em sinal de respeito. Ela é a única coisa que nos iguala aos humanos. Um dia todos nos iremos receber sua visita.
Ela entrou no banheiro de lá saíram. Ludmila e a Dama Branca.
- Vamos Ludmila. O caminho é longo e ainda tenho muito que fazer.
- Posso me despedir?
- Claro! Mas não demore.
- Desculpe gatinha. Eu não tive força. Não estava dando. Viver sem ela já era a morte. Fique em paz e seja feliz.
- Tchau. Gatinha a gente se vê por ai.
Ao som de poderosas asas, vejo as duas desaparecerem. Agora estou livre e só. Ouso vozes lá em baixo no beco. Vou ate a janela.
- Hummmm. Quem será o gato preto com o tigrado. Vale a pena descer e conferir. Quem sabe...

MH: Quem é a Dama Branca? Não se preocupe, um dia você vai conhecê-la.

Um comentário:

Anônimo disse...

seu estilo de escrever é diferente
mas eu gosteii ^^
depois eu leio os outros contos *-*

:**